Transformar resíduos em eletricidade e gás combustível deixou de ser um conceito de laboratório e virou uma necessidade contábil para o Brasil. Os prazos legais apertam, os números do passivo ambiental são gigantescos e o setor começa a ganhar tração. Ainda assim, a distância entre o potencial técnico e a realidade operacional segue grande.

O tamanho do problema que vira oportunidade

O ponto de partida é a montanha de lixo que o país produz. Segundo o portal GNPW, com base no Panorama dos Resíduos Sólidos da ABREMA, o Brasil gerou 81,6 milhões de toneladas de resíduos sólidos municipais em 2024, sendo que apenas 41,4 milhões de toneladas (59,7% do que foi coletado) receberam destinação ambientalmente adequada GNPW Group. Em outras palavras, mais de 40% do lixo gerado ainda vai para lixões e aterros controlados.

Esse cenário esbarra em obrigações legais que não admitem mais adiamento. O portal especializado WTEEC explica que o indicador global 3 do PLANARES estabeleceu a obrigatoriedade de eliminar a disposição final inadequada (lixões e aterros controlados) até o final de 2024, mas a projeção indicava cerca de 87 mil toneladas de RSU por dia destinadas incorretamente WTEEC.

Como o lixo vira energia

Existem duas rotas tecnológicas principais. A primeira é biológica, com a digestão anaeróbica da fração orgânica para gerar biogás, que depois pode ser purificado e transformado em biometano. A segunda é térmica, com incineração controlada, gaseificação ou pirólise.

A diferença de rendimento entre as duas vias é relevante. Conforme análise do AECweb com o professor Gilberto Martins, da UFABC, na digestão anaeróbia é possível obter entre 50 e 150 kWh por tonelada de lixo, dependendo da fração orgânica, enquanto em processos termoquímicos os valores variam entre 450 a 700 kWh por tonelada AECweb.

Se considerarmos toda a geração nacional, a potência média seria da ordem de 4 a 5 GW de eletricidade, valor próximo da potência eólica instalada hoje no Brasil AECweb.

Os benefícios concretos

Redução de gases mais agressivos que o CO₂

O biometano ataca um problema específico e crítico. Conforme reportagem da CartaCapital, o biometano reduz a emissão de metano, gás até 28 vezes mais poluente que o CO₂, diminui a pressão sobre aterros, substitui combustíveis fósseis e movimenta economias locais CartaCapital.

Redução drástica do volume de resíduos

O Terra Brasil Notícias detalha o ganho operacional da rota térmica ao descrever a usina de Barueri (SP): o sistema consegue reduzir em até 90% a massa do lixo descartado, tratando gases e resíduos gerados durante o processo Terra Brasil Notícias. A unidade tem capacidade para atender cerca de 75 mil casas e processa resíduos de Barueri, Santana de Parnaíba e Carapicuíba.

Posicionamento do Brasil no mercado global

A CartaCapital cita uma projeção animadora da Agência Internacional de Energia: o Brasil, embora ainda no início, deve tornar-se em breve o quinto maior produtor do mundo, respondendo por mais de 10% do fornecimento incremental global até 2026 CartaCapital. A ABiogás projeta que o volume produzido no Brasil pode chegar a 6 milhões de m³/dia até 2029, com 86 plantas em funcionamento CartaCapital.

Receita adicional e novos modelos de negócio

O ganho ambiental se converte em receita real. O portal GNPW resume a equação econômica: um passivo ambiental se torna matéria-prima, com redução de emissões de metano, conformidade com requisitos ESG, elegibilidade para o programa RenovaBio e receita adicional GNPW Group.

Análise crítica: onde o discurso encontra a realidade

Aqui é preciso fazer uma pausa para olhar os pontos frágeis do setor.

O primeiro deles é a competitividade nos leilões de energia. O GNPW lembra um episódio revelador: o primeiro leilão de capacidade que permitiu participação de WtE foi tentado em 2021 e nenhum projeto foi contratado por falta de competitividade de preço GNPW Group. Isso significa que, sem mecanismos específicos de remuneração, a geração a partir de resíduos perde para fontes mais baratas.

O segundo ponto é o porte do investimento necessário. Conforme estimativa do Movimento Biosphere World, o potencial de geração elétrica considerando o volume de resíduos produzido no Brasil poderá gerar de 4 a 5 GW de potência instalada ao longo de uma década, demandando investimentos de 40 a 50 bilhões de reais Movimentobw. É um valor expressivo que depende de segurança regulatória e contratos de longo prazo.

Há também um limite conceitual que o setor evita debater abertamente. O AECweb traz uma observação importante do professor Gilberto Martins: o potencial não é muito grande, sobretudo se for levado em conta que é preciso tentar reduzir a geração de lixo, portanto, o seu potencial de geração de energia AECweb. Ou seja, há um conflito implícito entre estimular a redução de resíduos (objetivo ambiental) e garantir volume mínimo para alimentar usinas (necessidade econômica).

Por fim, vale mencionar a dependência de garantias regulatórias. Para o WTEEC, o avanço passa por consolidação de mecanismos de remuneração para a energia gerada a partir de resíduos em leilões, equiparação do WtE a outras fontes renováveis em termos de tributação e contratos de longo prazo que garantam o fornecimento de resíduos WTEEC. Sem essas três peças, o modelo não fecha.

Casos que estão de pé

Apesar dos obstáculos, alguns projetos já operam com escala. A CartaCapital destaca o Centro de Tratamento de Resíduos de Seropédica, no Rio de Janeiro: o aterro recebe cerca de 10 mil toneladas de resíduos por dia, sendo 9 mil do município do Rio, e responde por 10% de todo o biogás produzido em aterros no Brasil CartaCapital.

Em São Paulo, o Terra Brasil Notícias informa que o grupo Orizon planeja expansão acelerada: novas unidades estão planejadas até 2028, cada uma com capacidade para processar mil toneladas diárias de lixo e gerar 30 megawatts de energia, com meta de desviar até 70% dos resíduos dos aterros sanitários até 2040 Terra Brasil Notícias.

Conclusão

Energia gerada a partir do lixo combina um benefício ambiental claro com uma resposta técnica para um problema legal urgente. Os ganhos em redução de metano, recuperação de áreas degradadas e diversificação da matriz energética são reais e mensuráveis. Por outro lado, a viabilidade econômica ainda depende de marcos regulatórios mais firmes, leilões com regras específicas e investimentos pesados que precisam de previsibilidade. O Brasil tem o lixo, tem a tecnologia disponível e tem a obrigação legal. O que falta, no fundo, é alinhar os incentivos para que o ativo energético supere o passivo ambiental no balanço final.

Fontes consultadas

  1. GNPW. Brazil produces 81.6 million tons of waste per year. 40% still ends up in the wrong places. Why does almost none of it become energy? Disponível em: https://www.gnpw.com.br/en/clean-energy/brazil-produces-81-6-million-tons-of-waste-per-year-40-still-ends-up-in-the-wrong-places-why-does-almost-none-of-it-become-energy/
  2. CartaCapital. Energia que vem do lixo. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/publieditorial/energia-que-vem-do-lixo/
  3. Terra Brasil Notícias. Nova usina em SP vai transformar toneladas de lixo em energia para beneficiar 75 mil casas. Disponível em: https://terrabrasilnoticias.com/2025/11/nova-usina-em-sp-vai-transformar-toneladas-de-lixo-em-energia-para-beneficiar-75-mil-casas/
  4. WTEEC. WtE no Brasil: O que o PLANARES Exige do Setor em 2026. Disponível em: https://wteec.com/waste-to-energy-no-brasil-o-que-o-planares-exige-do-setor-em-2026/
  5. AECweb. Aproveitamento do lixo na geração de energia ajuda a reduzir impactos ambientais. Disponível em: https://www.aecweb.com.br/revista/materias/aproveitamento-do-lixo-na-geracao-de-energia-ajuda-a-reduzir-impactos-ambientais/12418
  6. Movimento Biosphere World. Geração de energia a partir de resíduos sólidos urbanos. Disponível em: https://movimentobw.org.br/noticias/exibir/geracao-de-energia-a-partir-de-residuos-solidos-urbanos